terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Por que eu vendo? Por que eles compram?

Eu vendo porque é o meu trabalho. É sempre melhor para o cliente? Impossível dizer, acho. Já vi gente resgatar capitalizações com grande perda para cobrir cheques especiais, dinheiro que não teriam poupado se não fechassem o título. Seguros de carro podem ser pagos por décadas sem um sinistro, e carros podem bater sem estar segurados, quem sabe do amanhã? Já vi negócios que pareciam ótimos acabarem mal, como na crise da bolsa, em 2008.

É claro que eu não ofereço algo que não me parece minimamente razoável - até fecho com o cliente se ele vier pedir, mas oferecer? Não, aí já é sacanagem.

Mas por que eles compram? Por que eu compro, por que a gente compra? Por que alguém compraria alguma coisa, qualquer que fosse, se não por necessidade? E a gente compra tanta coisa sem necessidade...

E dizem pra nós, vendedores (e como eu estranho dizer nós, vendedores), que é só oferecer. Não é. É como dizer para o magrelo espinhento e sem jeito numa boate que é só chegar das gatas e uma hora ele leva - há muitas nuances na questão, algumas até fora do seu controle: se uma não quer ficar com ninguém, se outra está esperando o namorado, se todas são bem mais velhas que ele, ou se todas são lésbicas...

É como muitos dos clientes chegam até nós: um mistério dentro de uma charada dentro de um enigma. O que eles querem? Será que vamos conseguir ver os sinais? Será que os sinais serão visíveis?

Mas não é só isso: como no caso do magrelo espinhento, há nuances nas quais dá pra investir: malhar pra ganhar corpo, fazer limpesa de pele, se vestir bem, aprender a ficar à vontade durante uma conversa e a olhar nos olhos, entre outras.

E aprender a ler os sinais.

Um amigo meu, pegador de marca maior, sempre me dizia que a chave do seu sucesso era saber reconhecer quais mulheres estavam acessíveis e quais não estavam. Ele podia chegar numa mesa com sete mulheres, ser simpático, olhar nos olhos, passar segurança, e em instantes saber qual ou quais delas topariam alguma coisa. Eu já o vi fazendo isso, e nunca consegui o mesmo.

Hoje ele é um coiffeur talentoso, que fideliza e rentabiliza suas clientes com competência, e eu um vendedor ainda meio chumbrega, trabalhando no varejo de um grande banco. Ainda tentando aprender a olhar para o outro e a cuidar de mim.

Alguns desafios permanecem desde então: me vestir da forma apropriada, ficar a vontade enquanto converso, olhar nos olhos, ouvir sem interromper, ser mais conciliador e cortês. Preciso aprender a respeitar e valorizar a todos, ricos ou pobres, bonitos ou feios, simpáticos ou antipáticos, e a mim. E pensar duas vezes quase sempre - vou aprendendo a confiar na minha intuição e a saber quando usá-la.

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